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Objetivo do seminário: promover o encontro dos pesquisadores africanistas desta unidade da USP, para que estes compartilhem com os colegas seus projetos de pesquisa. Espera-se dessa forma contribuir para uma melhor interação entre professores e alunos interessados pela temática

 

RESUMOS

 

A PESQUISA SOBRE ÁFRICA EM LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA

Profª Drª Rejane Vecchia da Rocha e Silva Gomes: 1. Imbricações entre os campos da literatura e da história: Brasil e países do continente africano; 2. Literatura, história e vida social: literaturas africanas de língua portuguesa - Fase II, que será representada por Ubiratã Martins

A presente comunicação visa estabelecer uma relação comparativa entre os romances Neighbours (1995), de Lilia Momplé, e Os sobreviventes da noite (2008), de Ungulani Ba Ka Khosa, articulando os campos da estética, política e história, mediante um embasamento teórico de cunho materialista e dialético.

Tendo em vista que ambos os romances tratam do mesmo conflito armado que se seguiu à independência de Moçambique, ao longo dos anos de 1980 e inícios dos 1990, a comparação entre ambos permitirá que se ponha em evidência certa estrutura estética que se repete em um e em outro romance. Existe em ambas as obras um tipo de desenvolvimento da ação, que é como uma inação, uma espécie de letargia narrativa, em que o foco narrativo está muito mais concentrado em remontar todo um passado das personagens em retrocesso narrativo através de invocações de um cotidiano o mais trivial possível. Ao invés de uma horizontalidade extensa, que proponha o desenvolvimento de uma ação baseada num conflito entre personagens e situações, temos uma verticalidade intensa, que adensa a narrativa no sentido muito mais de reconstruir o passado pessoal de cada personagem, do que desenvolver alguma ação muito significante em tempo presente.

Partindo de uma fundamentação teórica que busca visualizar a obra literária como ato social ideológico, e que, portanto não pode ser abstraído do processo histórico do contexto em que foi produzido, objetiva-se investigar uma possível interação entre este dado estético comum às duas obras e os problemas da história recente de Moçambique, levando em consideração que ambas as obras tratam do mesmo momento histórico, a Guerra Civil, através de formas de narrar muito próximas.

Profª Drª Rosangela Sarteschi: Literatura e História: constituição das identidades nos países de língua oficial portuguesa

Leitura e análise de textos literários produzidos ao longo do século XX e o início do XXI, que encenam formas de construção ou reconstrução identitária nos países de língua oficial portuguesa, especialmente Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique e Portugal. A produção focada estabelece um processo de conhecimento/reconhecimento e de valorização das diferentes perspectivas e compreensões concernentes à formação e às configurações dessas sociedades, desconstruindo, assim, as significações e representações do cânone estabelecido.

corpus de análise abrange os seguintes autores: Germano Almeida (Cabo Verde), Pepetela (Angola), Lídia Jorge e José Cardoso Pires (Portugal), Conceição Evaristo, Cuti e Ferréz (Brasil), Paulina Chiziane e Suleiman Cassamo (Moçambique)

Um desdobramento desse projeto é examinar como essas produções literárias de forte vinculação com a construção identitária dessas sociedades e culturas são incorporadas ao Ensino de Literatura no âmbito da educação básica após aprovação da Lei 11.645/08 que prevê a introdução da história e cultura dos povos africanos, afro-brasileiros e indígenas, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional nos currículos escolares.

Emily Cristina dos Ouros (ME): A contramão da realidade: ideologia e vida social em “O ex-mágico”, “Frontal com Fanta” e “O ataque”

Propondo uma leitura em perspectiva dos contos O ex-Mágico da Taberna Minhota, de Murilo Rubião, O ataque, de Luiz Ruffato; e Frontal com Fanta de Jorge Furtado, este trabalho tem por objetivo demonstrar como as narrativas do insólito denunciam e problematizam, por meio da experiência social, os mecanismos ideológicos que não necessariamente estão a serviço de determinar uma verdade comum aos olhos do leitor, mas regulam e fazem prevalecer os interesses de alguns grupos sociais dominantes.

Igor Xanthopulo (ME): A dimensão do herói em “As Andorinhas” de Paulina Chiziane

A pesquisa dedica-se ao estudo do livro de contos As Andorinhas publicada em Maputo no ano de 2008. A finalidade da pesquisa é aprofundar-se na figura do herói em diálogo com os âmbitos sócio-histórico e mitológico no contexto de produção do texto, estabelecendo uma reflexão sobre o campo literário moçambicano, a construção do herói nacional e as relações entre a literatura, a sociedade e o pensamento mítico. O livro retoma três personalidades históricas importantes. A primeira narrativa apresenta o monarca Gungunhana, último imperador nguni, antes do domínio efetivo do território de Gaza, ao sul de Moçambique, pelo sistema colonial português. O segundo conto protagoniza Eduardo Mondlane, primeiro presidente da FRELIMO e importante figura na a luta de libertação. O último conto apresenta uma menina pobre apaixonada por esportes e as tensões que se estabelecem entre suas aspirações e a sociedade na qual está inserida. O conto tem como referência Lurdes Mutola, atleta moçambicana, campeã olímpica em 2000. Mesmo referenciadas na História, as narrativas de As Andorinhas, por intermédio da tradição oral e da manutenção dos valores locais, aproximam-se das narrativas mitológicas, ressignificando as personagens e os impasses sócio-históricos de Moçambique, sobretudo, o sistema colonial e suas mazelas.

Laiz Colosovski (ME): A presença da tradição nas obras “O Regresso do Morto”, de Suleiman Cassamo e “Orgia dos Loucos”, de Ungulani Ba Ka Khosa

A pesquisa em questão pretende realizar um estudo sobre como o pensamento tradicional africano se estrutura de maneiras diversas nas narrativas de Suleiman Cassamo e de Ungulani Ba Ka Khosa, dois escritores Moçambicanos que se dedicam a temas semelhantes em suas obras, tais como a morte, a presença do pensamento tradicional no cotidiano das populações moçambicanas e as dificuldades advindas dos processos históricos do país. Ao mesmo tempo em que as obras de ambos perpassam estas questões, as abordagens estilísticas de cada autor são bastante distintas, o que nos permite, através da comparação, estudar uma série de complexidades e de contrastes presentes atualmente em Moçambique através da literatura.

Para realização deste estudo, foram selecionados os livros O Regresso do Morto, de Suleiman Cassamo, e Orgia dos Loucos, de Ungulani Ba Ka Khosa. A primeira obra consiste em uma coletânea de contos curtos, publicada em 1989, que nos mostra aspectos de tensão presentes na vida cotidiana das populações moçambicanas, optando, de modo geral, por saídas construtivas e ao mesmo tempo críticas para suas tramas. Já o livro de Ungulani Ba Ka Khosa, também uma coletânea de contos publicada em 1991, aborda com mais intensidade as complexidades dos processos históricos em Moçambique e como esses processos entram em choque com as vivências e simbologias africanas.

Sérgio Rorato (ME): O negro na literatura: um estudo de “Negrinha” e “A menina Vitória”

O objetivo desta pesquisa é comparar os contos “Negrinha”de Monteiro Lobato e “A Menina Vitória” de Arnaldo Santos, estabelecendo conexões  entre texto e contexto. Os dois contos retratam mulheres negras que estão à margem em suas sociedades: Monteiro Lobato e Arnaldo Santos se debruçam, respectivamente, sobre um tema social em voga no início do século XX no Brasil e na metade do mesmo século em Angola: o lugar do negro nessas novas sociedades que se formavam à época nos dois países. Mesmo após a abolição da escravatura no Brasil em 1888 e as lutas contra a colonização nas décadas de 1960 e 1970, em Angola, o negro, nessas duas sociedades, continuou preso às amarras e ao jugo do branco. “Negrinha” e “A Menina Vitória” corroboram a ideia de que tanto no Brasil quanto em Angola o branco dominador exercia controle físico, mental e cultural em relação ao negro escravo e colonizado. De maneira irônica, os autores expõem a estrutura dos comportamentos das elites coloniais nos dois lados do Atlântico. Com relação à forma, escolha do gênero conto aponta significativamente para a intenção dos autores. Muito além da brevidade, pretendemos discutir como este gênero garantiu a excelência dos textos e uma maior eficácia em elaborar simbolicamente de maneira pungente a difícil situação dos negros nos países em questão. Por fim, pretendemos, pela via do comparativismo, aproximar a vida da Negrinha, uma menina de sete anos, órfã, que ficou esquecida na casa dos patrões brancos onde é constantemente agredida física e moralmente em virtude de sua condição de filha de escravos, e a da Menina Vitória, uma moça negra, professora, que tenta disfarçar a cor de sua pele com maquiagem em clara fixação pela cultura do colonizador.

Tatiane Pereira de Santana Ivo (ME): Como cantam as vozes em Marcelino Freire: uma reflexão acerca da linguagem e da focalização narrativa em “Contos negreiros”

Esta pesquisa pretende propor uma reflexão acerca da obra Contos negreiros, de Marcelino Freire, um dos destaques da literatura brasileira contemporânea. Sem desconsiderar a temática do livro – que trata da dor e marginalização daqueles que enfrentaram navios e hoje enfrentam trens negreiros –, nossa análise se debruçará, sobretudo, sobre a focalização narrativa e os elementos estéticos e estruturais dos contos, tais como a oralidade, a concisão e a re-significação de clichês – aspectos que potencializam o efeito artístico da escrita freiriana.

Fernando Breda (IC): Uma leitura comparada entre Graciliano Ramos e Ferréz

A pesquisa visa, a partir da leitura comparada de dois momentos da obra de Ferréz e Graciliano Ramos, estabelecer aspectos convergentes e divergentes cristalizados nas obras dos autores. O corpus de análise são os contos “Fábrica de fazer vilão” e “Pensamentos de um correria” de Ferréz, e dois capítulos do romance Vidas Secas de Graciliano Ramos.

A hipótese lançada é de que existe uma semelhança estrutural entre as vidas dos protagonistas dos contos de Ferréz e Fabiano no que diz respeito à inserção dos mesmos no mundo do trabalho. Tanto no mundo rural de Fabiano quanto no universo urbano dos contos de Ferréz, a situação vivida pelas personagens é dupla na medida em que estão ao mesmo tempo inseridos no universo econômico da ordem e marginalizados pela mesma; ora, no primeiro caso, estamos tratando do morador, que vive de favor em terra alheia, cujo proprietário mal o paga e ainda “espera” a gratidão, já no segundo, temos marginalizados consumidores sem meios para consumir, que transitam em certo grau de ilegalidade e/ou fanatismos. Visto isso, novamente, é lançada outra hipótese: a de que a avaliação e o horizonte colocados nas obras são diversos, esperançoso e comedido, num caso, rancoroso e exaltado noutro.

Dayse Oliveira Barbosa (IC): Literaturas de língua portuguesa na escola: construindo diálogos

Tendo em vista atender à Lei Federal 11645/08, que determina a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura africanas no ensino básico brasileiro, esta pesquisa visa à elaboração de sequências didáticas bimestrais que contemplem o estudo comparativo entre literatura brasileira, afro-brasileira e literaturas africanas de língua portuguesa (em especial, as literaturas angolana, moçambicana e cabo-verdiana), a fim de propiciar aos estudantes do primeiro ano do ensino médio da rede estadual de São Paulo a oportunidade de lerem e interpretarem textos de diferentes estilos literários e contextos, refletindo sobre as relações dialógicas existentes entre literatura e sociedade.

Gabriela da Silva Duarte (IC): A inclusão das literaturas africanas e afro-brasileiras no ensino médio: problematizando o preconceito racial

O projeto pretende fazer uma reflexão de como a inclusão de textos africanos de língua portuguesa e afro-brasileiros no ensino médio pode colaborar na problematização do preconceito racial na sociedade brasileira. Nesse sentido, pretende-se selecionar textos poéticos e ficcionais que abordem essa temática a partir dos quais elaborar-se-ão sequências didáticas.

ProfaªDrª Vima Lia de Rossi Martin

Projeto 1: Literatura e marginalidade social nos países de língua portuguesa

O projeto, atrelado à linha de pesquisa “Literatura e experiência histórica nos países de língua portuguesa”, investiga formas de representação ficcional e poética de sujeitos socialmente marginalizados em obras literárias de língua portuguesa. Articulando as noções de modernização, exclusão, autoritarismo e violência, as reflexões são desenvolvidas especialmente a partir de textos brasileiros, angolanos e moçambicanos contemporâneos.

Projeto 2: Ensino e aprendizagem das literaturas de língua portuguesa

O projeto visa refletir sobre os limites e o alcance de práticas pedagógicas voltadas para o ensino e a aprendizagem das literaturas de língua portuguesa, em especial das literaturas africanas e afro-brasileira, no contexto educacional brasileiro.

ProfªDrª Tania Celestino de MacêdoAngola no novo milênio: os desafios da paz

Descrição: Angola no novo milênio: desafios da paz visa a examinar algumas tensões e contradições que percorrem a sociedade angolana hoje, buscando aprofundar a compreensão de seus processos, ao mesmo tempo em que, examinando alguns dos discursos e representações do passado, sobretudo no que concerne aos vários conflitos armados de que o país foi palco, discernir as linhas de força do presente. Dessa maneira, questões culturais como a da literatura e a da música urbana, mas também da geografia, da história e da economia de Angola, muito especialmente de Luanda com seus mercados e os desafios que hoje se apresentam à juventude do país, constituem o foco de estudo do projeto.

ProfªDrª Andrea Cristina Muraro: Imagens identitárias de África e dos africanos: olhares cruzados no romance A terceira metade, de Ruy Duarte de Carvalho

A partir de uma acertada inversão de perspectiva, a trama do romance Terceira Metade (2009) de Ruy Duarte de Carvalho centra-se no percurso de seu protagonista Jonas Trindade, que fomenta uma narrativa em que autor e narrador revezam-se em prol dos registros das memórias deste personagem atento e observador da presença estrangeira em Angola.

Para construir o romance austral de Trindade, o autor coloca um modo diferente de pensar a imagem de África, de Angola e do africano, pois   Trindade é mucuísso, não-bantu, e portanto, está entre, pelo menos, dois mundos: o dos brancos e dos bantus. Do nascimento mucuísso, a infância na casa de brancos na então Moçamedes, a adolescência entre mucubais à aprendiz de cozinheiro, a personagem central relata e revela a multidão de estrangeiros (suecos, portugueses, bôeres, belgas...), cientistas especialistas das mais diversas áreas (biólogos, engenheiros, geólogos...) que intentavam investigar e compreender Angola. Contudo, estavam mais a serem investigados por Trindade, para a surpresa do autor

Já o narrador privilegia espaços e tempos destas densas ruminações de Trindade com uma narração que privilegia uma espécie de historiografia angolana, situando, por exemplo, o Livro I no período colonial e o Livro II, na sua maior parte, no período pós-independência. Sem deixar de relacionar os inúmeros episódios com seu contexto no continente africano e muitas das vezes, além do espaço africano, como se vê principalmente no Livro III.

Acrescente-se a isso as inúmeras referências literárias, usuais no projeto literário do autor, que atam uma multiplicidade de paisagens culturais e imagens identitárias já percorridas em outras obras, tais como Os papeis de inglês (2002) e As paisagens propícias (2003), partes da trilogia Os filhos de Próspero, sem deixar de amplificar o que se assinalava anteriormente em Desmedida (2006).

Dessa forma, a pesquisa em andamento pretende investigar a representação da África e dos africanos por via do protagonista do romance, em suas imagens filtradas pelo narrador e pelo autor.

Débora Leite David (pós-doc): Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro: Marcas literárias africanas em língua portuguesa no século XIX

Este projeto tem por objetivo estudar três aspectos nas colaborações enviadas do continente africano ao Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro durante o período de 1878 a 1898: o nativismo, o protonacionalismo e a referência à metrópole portuguesa. O método para atingir esse propósito será uma análise segundo os pressupostos dos Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa aliada à pesquisa de material primário a ser coletado nos exemplares do citado almanaque. A partir do levantamento da produção relativa àquelas colaborações, em conjunto com o estudo de parte dos respectivos textos, buscamos analisar os elementos que configuram as manifestações literárias oitocentistas nos países africanos de língua portuguesa. Investigamos, outrossim, se estas manifestações literárias durante a segunda metade do século XIX fazem parte de um projeto estético de criação literária e de um ideário que nortearam as iniciativas intelectuais para a consolidação das literaturas africanas de língua portuguesa no século XX. Apontando, assim, indícios de uma posição consciente de alguns escritores em relação à necessidade da construção de uma literatura empenhada àquela altura, por meio de uma consciência histórica voltada para a ideia de formação de uma literatura pátria.

Nazir Ahmed Can (pós-doc): Entre texto e sociedade: o campo literário moçambicano em discussão

Devido ao menor poderio da instituição literária do país, assim como às lógicas de clientelismo e de mecenato que se aceleram na era global, o sistema literário moçambicano caracteriza-se pela heteronímia, possuindo mais de um rosto: um circuito tendencialmente nacional (vinculado aos inúmeros concursos literários existentes no país, às associações de jovens escritores, às edições de autor, etc.) e outro inclinado à internacionalização (com escritores publicados no país, mas também em Portugal e no Brasil, ou mesmo traduzidos para outras línguas). Além destes dois extremos, encontramos alguns autores emergentes, que, pertencendo à nova geração, não tendo sido ainda alvo de muitos estudos, e atentos ao fosso visível das obras invisíveis para onde não querem ser relegados, fazem a mediação entre as imediações nacionais e o topo internacionalizado. Partindo da teoria do “campo literário” (BOURDIEU, 1992), que enfatiza a orientação e o condicionamento das instituições sobre o escritor, e apoiando-nos na teoria das “redes literárias” (MARNEFFE, DENIS, 2006), que viabiliza o estudo de campos situados, dependentes e vulneráveis, discutiremos a diversidade de propostas estéticas e lógicas institucionais que o atual espaço literário moçambicano abriga.

A PESQUISA SOBRE ÁFRICA EM LITERATURAS DE LINGUA INGLESA - A ÁFRICA MULTIFACETADA DE LÍNGUA INGLESA

Profª Drª Laura P.Z. Izarra e doutoranda Mariana Bolfarine"Roger Casement e o Congo"

Antes de chegar ao Brasil em missão diplomática, Casement esteve vinte anos na África subsaariana. Iniciou sua carreira como um jovem imperialista na África e chegou ao Congo em 1884, sendo nomeado agente colonial da Associação Internacional do Rei Leopoldo; porém, logo se desiludiu, renunciou ao cargo e assumiu outras funções. Foi cônsul britânico na África Ocidental portuguesa e denunciou o modus operandi de opressão no Estado Livre do Congo. A atuação de Roger Casement, responsável pela redação de um relatório contendo fotografias dos missionários que comprovavam as atrocidades cometidas contra os indígenas, é vista hoje como precursora dos direitos humanos. Apresentaremos uma breve análise da representação desse momento histórico na primeira parte do romance El sueño del celta, de Mario Vargas Llosa

Divanize Carbonieri (Doutorado defendido em 2010): A narrativa pictórica como uma fronteira deslizante em “The Madonna of Excelsior” de Zakes Mda

No romance The Madonna of Excelsior (2002), o sul-africano Zakes Mda insere a descrição de pinturas no início de cada capítulo, criando um espaço de trânsito para o leitor antes dos eventos ficcionais. Isso dá um novo sentido a essa metaficção historiográfica, que retrata um momento nevrálgico da história sul-africana: justamente o deslizamento entre o período do apartheid e aquele que caracterizou o seu fim. O objetivo desta apresentação é analisar a relação entre essa estratégia narrativa e a representação de fronteiras deslizantes entre passado e presente, ficção e história, ancestralidade e modernidade, violência e reconciliação.

Marilia Fátima Oliveira (Doutorado defendido em 2013): A censura sul africana do Apartheid e seus reflexos na obra de JM Coetzee

A liberação dos documentos oficiais produzidos pelos censores durante o período do apartheid nos possibilitou levantar hipóteses sobre a influência da censura não só na produção artística sul africana – em especial na obra de JM Coetzee – mas também na atuação dos censores e dos editores.

Esta apresentação visa discutir estas influências especialmente no romance In The Heart of the Country, de JM Country.

A PESQUISA SOBRE ÁFRICA EM HISTÓRIA

ProfªDrª Marina de Mello e SouzaEntre a cruz e a espada. Poder, catolicismo e comércio na África Centro-Ocidental, séculos XVI e XVII.

A tese trata das formas como os poderes locais se relacionaram com os missionários católicos, importantes agentes da conquista portuguesa na África Centro-Ocidental, e como algumas práticas católicas forma adotadas e reinterpretadas a partir dos sistemas simbólicos locais. As regiões tratadas abarcam o Congo, o Dongo, Angola, Cassanje e Matamba, sendo dada uma especial atenção aos processos de tradução ocorridos nos contatos entre agentes culturais pertencentes a diferentes sistemas de pensamento.

Orientandos:

Alexandre Almeida Marcussi (DO): Cativeiro e cura: Experiências religiosas da escravidão atlântica nos calundus de Luzia Pinta, séculos XVII-XVIII

Esta pesquisa tem como objetivo investigar os sentidos associados à prática dos calundus, como eram denominados genericamente os ritos mágico-religiosos com funções curativas e divinatórias realizados por africanos na América Portuguesa entre os séculos XVII e XVIII. A análise terá como foco o percurso de Luzia Pinta, alforriada de origem angolana que residia em Sabará e que foi processada pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa no ano de 1742 sob a acusação de feitiçaria. A análise de inspiração micro histórica de sua trajetória procurará apreender os múltiplos significados relacionados aos calundus para diferentes agentes em diversos espaços geográficos e institucionais do Império Português.

Gabriela Segarra Martins Paes (DO): Ventura e desventura no Rio Ribeira de Iguape

A pesquisa aborda a história da ocupação das margens do Rio Ribeira de Iguape, especialmente, no Baixo Ribeira (Iguape) e no Médio Ribeira (Eldorado e Iporanga). A ocupação dessas áreas está relacionada com a mineração (sécs. XVII e XVIII) e com a rizicultura (séculos XVIII e XIX). Africanos participaram desses ciclos econômicos. Serão pesquisadas as trocas culturais estabelecidas entre europeus, africanos e indígenas. Especial atenção receberá o mito do “negro d’água”, os ritos praticados pelos “curadores de feitiço” e algumas práticas do catolicismo popular. Atualmente, no Médio Ribeira, localizam-se comunidades remanescentes de quilombo.

Juliana Ribeiro da Silva Bevilácqua (DO): Sobas, Diamang e Museu do Dundo: relações de poder num território angolano

O presente projeto de doutorado, inserido no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo, tem como objetivo compreender as relações estabelecidas entre a Diamang, o Museu do Dundo e os sobas da região da Lunda, entre os períodos de 1936, ano de fundação do Museu, e 1961, ano em que se inicia a luta armada por parte dos movimentos nacionalistas angolanos. O Museu do Dundo, instituição criada pela Diamang e cujo propósito era estabelecer um espaço de preservação das culturas dos povos da Lunda que estavam se transformando ou se extinguindo pelas ações do colonialismo, acabou se tornando uma importante ferramenta utilizada pela companhia para atrair a colaboração dos sobas, já que muitas das atividades desenvolvidas pelo Museu estavam voltadas para beneficiar materialmente ou simbolicamente esses homens. Assim, a compreensão da participação dos sobas na constituição e nas ações do Museu do Dundo, bem como os significados que essa instituição teve para esses homens, pode oferecer grande contribuição para o entendimento da própria História da África e, mais precisamente, para a compreensão dos mecanismos de ressignificação utilizados pelas populações africanas diante das transformações de diversas ordens trazidas pelo colonialismo.

Mariana Bracks Fonseca (DO): Nzinga Mbandi, Ginga de Angola: memórias e representações da rainha guerreira na diáspora

Este projeto pretende compreender a circulação da memória de Nzinga Mbandi e as diferentes representações da rainha guerreira feitas no Brasil e em Angola desde o século XVII até o presente. Após a morte de Nzinga Mbandi, configurou-se a etnia Jinga na região de Matamba, criando-se uma nova identidade étnica a partir de sua trajetória histórica. Desde a década de 1960, Nzinga Mbandi é exaltada como heroína nacional em Angola e principal líder da resistência contra o colonialismo e atualmente o governo angolano tenta consagrá-la como patrimônio da humanidade junto a UNESCO. No Brasil, seu nome é evocado por diversos movimentos na construção da identidade negra e aparece em várias manifestações culturais de matriz africana, como a Capoeira, Congado e Candomblé Angola. Pretendo compreender os processos de ressignificação e mitificação da personagem histórica Nzinga Mbandi no Brasil e em Angola, com especial atenção ao papel da cultura popular afro-brasileira na preservação da memória das lutas dos africanos nos dois lados do Oceano Atlântico.

Michelle Comar (DO): A veste da imortalidade: um estudo sobre o sacramento do batismo no Império português

Com a descoberta do caminho marítimo para as Índias e a chegada nas terras que ficariam conhecidas como Brasil, Portugal se transformou na primeira nação europeia a ter um Império ultramarino – muitas terras a serem conquistadas; muitas almas a serem salvas. Nesta conjuntura, além do apoio econômico, a monarquia lusitana forneceu a base ideológica da colonização: a expansão da fé católica e a catequese dos gentios legitimariam a dominação econômica e política dos povos nativos. Logo, na gênese das justificativas para os processos de conquista encontravam-se Deus e a salvação das almas.

Com o projeto de expansão europeu pelo mundo a questão do batismo assumiu uma dimensão nunca antes conhecida, pela quantidade de novos povos a serem cristianizados e pela qualidade das reflexões sobre a própria natureza do sacramento. A partir deste contexto cabe, então, questionar: quem eram os missionários que cruzaram os oceanos à época das Grandes Navegações e que pessoas encontraram em seus destinos de chegada? Quais eram suas expectativas em relação à conversão dos gentios e quantas puderam se concretizar? E os povos nativos, como reagiram ao se deparar com os europeus, ditos enviados de Deus para lhes oferecer o batismo e a salvação de suas almas imortais? Por quais vias se deu o encontro dessas culturas e quais os seus resultados no vasto Império português?

Como se dava a prática do batismo – e, mais detalhadamente, como essa simbologia era transmitida pelos europeus, recebida pelos povos com os quais entravam em contato e, posteriormente, qual a importância desse sacramento para aqueles que o recebiam? Em consonância com a perspectiva histórico-religiosa, para a presente pesquisa interessa então perguntar sobre os mecanismos que possibilitaram os contatos, as trocas, bem como o arranjo semântico estabelecido no decorrer de séculos de mediação cultural (mais precisamente entre os séculos XVI e XVIII – a princípio), no Império português, por meio das práticas e rituais que envolveram o batismo.

Ana Luiza de Oliveira e Silva (DO): Contos da literatura oral: resgate de uma visão de mundo na África Ocidental pós-independência

O projeto de pesquisa debruça-se sobre a literatura oral da região do Sahel da África Ocidental (região também denominada Bafur), no contexto da pós-independência, na década de 1970. Ao estudar uma coletânea de contos orais publicada por Boubou Hama – obra composta por seis volumes e intitulada “Contes et legendes du Niger” [Contos e lendas do Níger] –, pretende-se verificar quais aspectos culturais/sociais estão presentes naqueles contos e como são retratados neles. O principal foco de atenção da pesquisa é o processo de representação de visões de mundo (Weltanschauung) nesta obra de literatura oral, sendo este o primeiro ponto que o projeto visa problematizar. Em segundo lugar, problematiza-se a questão do resgate e escrita de histórias imemoriais e orais em um contexto de formação de identidade pós-independência. Para além destas questões, pretende-se estudar, nos contos, as relações travadas entre homens, animais e seres do mundo invisível, entendendo-as como parte de um contexto cosmológico mais amplo, de maneira a relacionar tradição oral e visões de mundo. Pela identificação de significados simbólicos dos quais estariam imbuídas tais visões de mundo, busca-se compreender com quais elementos sociais/morais eles se relacionam, de forma a perceber quais valores Boubou Hama pretendia resgatar por meio daqueles contos. Por fim, quer-se analisar a função educativa dos contos, de maneira a verificar o papel social da literatura oral e de que forma os aspectos simbólicos nela presentes se inserem na ideia de propagação, resgate e conservação da cultura no período pós-independência. A partir destes objetivos, a pesquisa pretende oferecer uma maneira de pensar os contos considerando-os em relação a um “projeto” da sociedade que os resgatou e que buscou se resgatar através deles. Na pesquisa, privilegia-se a abordagem da história – cultural e metodologia a ser utilizada é a análise de conteúdo.

Gabriel dos Santos Rocha (ME): O negro como tema e sujeito na obra de Abdias do Nascimento – 1944-1968

A pesquisa abordará a obra de Abdias do Nascimento no período de 1944, ano em que foi fundado o Teatro Experimental do Negro, a 1968 quando foi publicada a primeira edição de O Negro Revoltado. Por meio dela buscarei analisar como questões sociais relacionadas ao negro no Brasil são problematizadas na obra deste autor, também artista e ativista de grande importância para o movimento negro, em um período emergência de uma nova consciência entre os intelectuais e ativistas em torno do Teatro Experimental do negro sobre as relações raciais em nosso país: um momento de ruptura gradativa com a ideologia da democracia racial brasileira e a emergência de uma “negritude” que trará a proposta de aproximação do legado cultural africano com meio de afirmação de uma identidade positiva para os negros brasileiros. A pesquisa também buscará analisar quais contribuições a obra de Abdias do Nascimento traz para os estudos sobre o negro no Brasil.

Camila Lobato Rajão (ME): Embates Discursivos - a construção da nação moçambicana

O projeto busca analisar o embate simbólico entre o discurso político e literário na formação e questionamento da história e da memória de Moçambique no contexto do fim do colonialismo português e da Guerra Civil. Para tanto, tem como objeto as representações da imagem de Gungunhana construídas pela FRELIMO e pelo livro Ualalapi de Ungulani Ba Ka Khosa. Considerando as especificidades do discurso político e do discurso literário no processo de enunciação e recepção, procura entender os motivos da utilização da figura de Gungunhana em ambos os discursos, sua relação com as operações de construção da memória e da história do país de Moçambique e consequentemente do povo moçambicano, principalmente a relação desses discursos com a disputa pelo poder tanto político quanto simbólico.

Alec Ichiro Ito (ME): O luso-africanismo no início do século XVII: a presença portuguesa nas Áfricas Ocidental e Centro-Ocidental

Durante muitos anos a história pré-colonial da África foi marcada pelo olhar eurocêntrico, evolucionista e racista da Europa ocidental do século XIX. O tempo passou e novas tendências surgiram em meados de 1960, sinalizando que não mais os pesquisadores ocidentais poderiam enxergar a África através dos olhos imperialistas. Seguindo os passos da nova história africana, o presente projeto de mestrado parte do princípio de que o fazer político e as estruturas socioculturais africanas, readaptadas e reapropriadas ao mundo luso-africano do século XVII, foram decisivas para que os portugueses firmassem sua presença nas Áfricas Ocidental e Centro-Ocidental. A hipótese aqui levantada é a de que Santiago e Luanda, dois centros populacionais fundados ainda no século XVI pelos portugueses, transformaram-se em microcosmos privilegiados com os quais os invasores aos poucos permearam as tramas do poder que se estendiam pelas regiões hoje conhecidas como Angola, Cabo Verde, Serra Leoa, Senegal e Guinés Bissau e Conacri. Nesse sentido, a adaptação de um sistema burocrático-administrativo na África e todas as suas implicações políticas no contexto da expansão ultramarina no Atlântico, vinculadas aos hábitos e costumes de um mundo luso-africano à margem de Lisboa, pode ser abordada como um novo campo de investigação.

ProfªDrª Leila M.G. Leite Hernandez: Elites africanas, circulação de ideias e nacionalismo anticolonial independentista

A preocupação com as singularidades tecidas pelo temporal e intemporal, e por territórios sobrepostos, teceram as malhas do imperialismo capitalista colonial das últimas três décadas do XIX até as independências e de suas formações ideológicas, no âmbito de um complexo processo de circulação de teorias e de ideias políticas. Nesta chave de análise, esta pesquisa tem como objetivo central identificar em que lugares e momentos as teorias e ideias políticas foram produzidas, como e onde foram lidas e reinterpretadas e os limites de suas transformações, marcando suas narrativas com “processos de afiliação” - na expressão de Edward Said, com o significado de “apropriação criativa”, em contextos plurais.

Nesta chave de análise busco compreender a diferença de contextos e lugares onde foi lido o locus matricial europeu - que articulava racismo e etnocentrismo - permitindo identificar raízes e rotas de intercâmbios entre África, Europa e América, presentes no modo como as ideias sofreram alterações substanciais e na formulação de novas questões.

Na etapa atual da pesquisa estudo a trajetória de Jean Price-Mars (1876-1969), seu papel junto ao Harlem Renaissance, no Congresso de Artistas Negros (1956), junto aos escritores da Revista Présence Africaine e a influência de suas ideias em frequentadores da Casa dos Estudantes do Império como Agostinho Neto, Noêmia de Souza, Amílcar Cabral e Mário Pinto de Andrade.

Orientandos:

Gabriela Aparecida dos Santos (DO): Guerreiros ngunis: cultura e poder na construção do mundo em Gaza (sul de Moçambique, século XIX)

Líder de um grupo de origem nguni, Manicusse chegou ao rio Maputo nos primeiros anos de 1820, na sequência da dispersão conhecida por Mfecane, que marcou o processo de centralização política na África Austral, entre a cordilheira do Drakensberg e o Oceano Índico. Nos anos seguintes, os ngunis deslocaram-se para o norte, apoiados em uma conformação social fortemente atrelada à valorização do guerreiro e à sua ação como demonstração de força coletiva. Com Manicusse, o sistema regimentar se tornou uma das instituições centrais em Gaza e se manteve nos governos dos inkosis seguintes, com Mawewe (1858-1861), Muzila (1861-1884) e Gungunhana (1884-1895).

Ao tomar como objeto de estudo o grupo social constituído pelo conjunto dos guerreiros ngunis, a pesquisa tem como proposta analisar a sua agência na produção e redefinição dos signos identitários nas terras de Gaza, consubstanciados na confirmação do inkosi como fonte ancestral e soberana de poder. A hipótese é de que a atuação dos guerreiros ngunis, validada no campo das relações sociais, sustentava o poder ascendente do inkosi em uma associação que devolvia à comunidade a imagem de sua unidade no território ao sul do que viria a ser denominado, décadas depois, Moçambique.

Com o fim de realizar essa proposta, além das fontes já coletadas – a correspondência entre governadores gerais e de distritos em Moçambique, produzida no âmbito da Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar (SEMU) do Governo de Portugal, e os relatos de viagens subsidiadas por Sociedades de Geografia, como a de Lisboa, em Portugal; a de Neuchâtel, na Suíça e a de Londres, na Inglaterra – a pesquisa envolverá a consulta aos acervos documentais do Arquivo Histórico de Moçambique (AHM), localizado em Maputo, e do National Archives and Records Service of South Africa (NARS), em seu repositório em Durban.

Milton Correia (DO): Legitimidade e nação em Moçambique: os Yao (1962-1975)

Este projeto tem como objeto a legitimidade e a nação pós-colonial em África. Ao tratar, em particular, do caso moçambicano, parte da tese sobre nacionalismo de Eduardo Mondlane, tendo como pressuposto central haver uma base parental de legitimidade territorial explicativa da existência de uma nação moçambicana que reitera as fronteiras coloniais.

Problematizando a historicidade da própria noção de convenção internacional, esta pesquisa propõe investigar a existência de uma convenção nacional resultante da complexidade de posições políticas das diversas unidades sociais do território hoje conhecido como Moçambique que, em determinadas conjunturas históricas, podem constituir um ponto de equilíbrio de interesses econômicos, sociais e políticos em um país caracteristicamente heterogêneo. Para tal, esta pesquisa tem como objeto de estudo os Yao e a relevância de suas identidades para a construção de uma nação que está a se inventar, desde o início da guerra de libertação, em 1962, até a consecução da independência, em 1975.

Ângela Fileno (DO): Brasileiros em Lagos: identidades no contexto da colonização britânica

Esta pesquisa se debruça sobre os processos de construção de identidades dos chamados brasileiros que viveram em Lagos durante o período de 1850 a 1920. Embora reconheça que a presença dos primeiros negreiros brasileiros a se instalar neste ponto da costa ocidental africana seja anterior aos oitocentos, esta pesquisa se concentra no que a historiografia convencionou denominar como a segunda e terceira gerações destes indivíduos.

Apesar da sua importância, ainda hoje é pequena a historiografia referente às dinâmicas e aos papeis assumidos por esses brasileiros no contexto do estabelecimento no Consulado britânico em Lagos, no ano de 1851 e, a partir de 1861, na etapa da penetração da Grã Bretanha em direção ao interior. Em torno destes marcos, muitos brasileiros atuaram como comerciantes intermediários entre negociantes britânicos do litoral e sociedades africanas que viviam mais distantes da costa, mais especificamente, entre a margem esquerda do rio Ogum e a margem direita do Níger. Esta situação se alterou a partir de 1861, quando a foi assinada a cessão do território de lagos, tornando-o efetivamente uma colônia da Grã-Bretanha, permitindo que Lagos se tornasse um centro de onde partiam as ações coloniais na região, conhecidos por uma série de tratados com chefias locais.

Considero a hipótese de que o estreitamento da participação política e econômica dos brasileiros em Lagos se associou ao movimento de valorização das culturas africanas que, a partir de 1890, ganhou maiores proporções. Trata-se de compreender como os emblemas representativos desses grupos foram formulados como resposta articulada a outras identidades em jogo, nas dinâmicas inter-étnicas historicamente estabelecidas e as relações de grupos egbas, ijexás e ondos.

Para responder à hipótese levantada utilizo um corpus documental formado a partir de três tipos de fontes: 1) relatos produzidos por oficiais da Coroa britânica e por missionários anglicanos e metodistas que estiveram em Lagos a partir da década de 1840; 2) dez títulos de periódicos publicados em Lagos, entre os anos de 1862 e 1920 que já foi objeto da primeira etapa da coleta no World Newspaper Archive, seção African Collection abrangendo seis periódicos: The Lagos Observer (1883 a 1888), Lagos Standard (1907 a 1920), Lagos Weekly Record (1891 a 1921), Nigerian Chronicle (1908 a 1915), The Nigerian Pioneer (1914 a 1922) e Times of Nigeria (1914 a 1920); 3) um compêndio de exemplares composto por relatórios de militares e funcionários da Coroa Britânica; e 4) por um compendio de exemplares das Govermnent Gazettes, jornal oficial que divulgava ações promovidas pelo governo estabelecido em Lagos, disponível para consulta no The National Archives, em Londres.

Helena Wakim Moreno (ME): Luanda entre o Atlântico e o Kuanza: articulação de ideias em uma cidade em transformação (1881-1901)

As últimas duas décadas do século XIX, Luanda foi das cidades sob o domínio português a que mais se destacou por sua atividade na imprensa. Estima-se que entre 1845 e 1900, foram publicados 49 títulos de publicações periódicas. Parte destas publicações era dirigida pelos “filhos do país”, os africanos nascidos em Angola, que viviam nas regiões litorâneas e suas circunvizinhanças e que, há séculos, estavam em contato com culturas africanas e com a cultura portuguesa.

A maioria das publicações trazia escrita numa chave de contestação política, ao lado de artigos literários e recreativos onde eram salientadas, sobretudo, questões relativas à escolaridade formal, ao trabalho “indígena” e ao “ódio de raça”. Em 1901, junto com o primeiro número do Almanach Ensaios Literarios, foi lançado um livro com pouco mais de duzentas páginas intitulado Voz d’Angola clamando no deserto – offerecido aos amigos da verdade pelos naturaes, considerado como um marco da literatura angolana. Esta pesquisa se debruça sobre essa obra, coletânea de onze artigos anônimos, que antecipou temas retomados em conjunturas subsequentes, integrando os ideários dos nacionalismos independentistas.

Luiz Guimarães Souza (ME): Luís Carlos Patraquim e Heliodoro Baptista: a contestação em letras (1980-1990)

O objetivo do projeto é analisar as dissonâncias ao projeto cultural e de nação da FRELIMO através das atuações de dois eminentes poetas e jornalistas moçambicanos, Patraquim e Baptista. Proponho analisá-los como representantes de uma oposição ao projeto que se tornou oficial, da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e à atuação contestatória de Luís Carlos Patraquim e Baptista. Para tanto proponho identificar suas escolaridades formais, relacionamentos políticos e redes de sociabilidade, para compreender suas produções literárias e jornalísticas enquanto expressões de circunstâncias históricas particulares e da visão de mundo, de sociedade e política.

A baliza cronológica, convergente com as fontes abrangerá a década entre o 1º Concurso Literário, em 1980, e o Grande Prémio organizado pela Gazeta de Artes e Letras, em 1990, ambos sob a égide da revista Tempo.

Esta conjuntura particular abrange fatos marcantes da história do tempo presente. Cito: o IV Congresso da FRELIMO que, em 1983, admitiu um descolamento entre o partido, o estado e a sociedade, abrindo espaços para mudanças estruturais, sobretudo, os referentes à “viragem” econômica; os Acordos de Nkomati assinados pela FRELIMO e a RENAMO, com o intuito de encerramento da Guerra Civil; os acordos com Fundo Monetário Internacional (1984) com o Banco Mundial (1987); e a decisão de iniciar um processo de transição para o multipartidarismo (1990).

Voltadas para o questionamento destes temas foram publicadas um conjunto de escrituras contestatárias que serão particularmente estudadas nesta pesquisa. Cito: Monção, de Luís carlos Patraquim, da coleção “Autores Moçambicanos” (1980); A Inadiável Viagem (1985); e Por cima de toda folha, de Heliodoro Baptista (1987). Não de menor importância, foram a fundação da Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO), em 1982; a fundação da Gazeta de Artes e Letras da revista Tempo e da revista Charrua (ambas em 1984), marcos da renovação política e cultural da década de 1980.

Com fontes documentais pesquisadas no Arquivo de Moçambique este projeto de pesquisa propõe entender o papel da escrita como arma contra o partido único em um debate que permite identificar os embates em torno da natureza e sentido da nação, nacionalismos e identidades.

No que se refere às fontes documentais deverão ser pesquisadas no Arquivo Nacional de Moçambique.

A proposta, portanto, ambiciona não se reduzir a aspectos locais, mas entendê-los como base para permitir uma maior discussão sobre nação, nacionalismos e identidade, assim como o papel da cultura e da imprensa neste processo.

Taciana Almeida Garrido de Resende (ME): Intelectuais cabo-verdianos em análise: a pluralidade e a luta por significações nos espaços de escrita de Cabo Verde (1931-1960)

A pesquisa de mestrado possui como objetivo a comparação dos discursos de Baltasar Lopes (1907-1989), João Lopes (1894-1979), Gabriel Mariano (1928-2002) e Henrique Teixeira de Sousa (1919-2006), intelectuais cabo-verdianos envolvidos no projeto da revista Claridade em Cabo Verde, entre os anos de 1931 e 1960A proposta é avaliar a pluralidade de discursos desses intelectuais cabo-verdianos e analisar suas perspectivas e lutas por significações de termos importantes para a identidade cabo-verdiana na época. Os significados de ser mestiço e do ser crioulo, presentes na escrita desses intelectuais, têm se mostrado diversos no percurso da pesquisa, o que aponta, a princípio, para possíveis fissuras ou diferenças pouco visíveis entre os escritores , quando tratados pela historiografia corrente, como precursores de um projeto intelectual único, o projeto claridoso. Espera-se que a perspectiva comparada permita vislumbrar aquilo que os unia em uma mesma denominação, os “claridosos”, e, ao mesmo tempo, os discursos plurais que faziam vir à tona disputas pela enunciação de aspectos importantes para o arquipélago ou mesmo divergências em relação às leituras de Cabo Verde.

As fontes documentais já foram colhidas nos arquivos de Lisboa, Coimbra e Rio de Janeiro, onde foi possível compreender diversos artigos dos escritores estudados, em jornais de Cabo Verde.

Profª Drª Maria Cristina Cortez Wissenbach

Direções e linhas das pesquisas em curso: As orientações em curso sob minha responsabilidades podem ser agrupadas em algumas direções.

I) Particularmente na área de estudos africanos, destacam-se inicialmente os trabalhos cujas temáticas relacionam-se à história das sociedades africanas centro – ocidentais e centro-orientais. Nesse sentido formam-se dois conjuntos:

  • Estudos que tem como foco a história das sociedades das atuais regiões de Angola e do Congo, especificamente e na ótica da história social, destaca-se a investigação sobre as experiências dos trabalhadores africanos e suas relações com as autoridades portuguesas (expedicionários – militares) nos finais do século XIX, ou melhor, às vésperas da partilha da África.(1) Também contemplando as estruturas de poder uma investigação sobre as relações entre as autoridades tradicionais da região do rio Congo e os europeus, portugueses e belgas, nos finais do século XIX. (2) No campo dos estudos da cultura material, uma pesquisa sobre os bens de prestígio e a penetração e transformações dos produtos vindos do comércio atlântico em insígnias de poder.(3)
  • Estudos que tem como foco a história das sociedades africanas das atuais regiões de Moçambique, na África Austral: a questão, nos séculos XX e XXI, dos processos migratórios dos macondes (do norte de Moçambique) em direção à Maputo; a relação desses mesmos grupos com o processo e as lutas de Independência e com a FRELIMO; a questão entre a identidade maconde e sua produção cultural e os símbolos da nacionalidade moçambicana;(4) um outro trabalho, também na área de história social e política, investiga as relações entre os reinos africanos pré-coloniais e as autoridades e mercadores portugueses estabelecidos na região da Zambézia e sobretudo os momentos de tensão e de conflitos;(5) finalmente um terceiro trabalho, na área dos estudos sobre o tráfico, explora as implicações do comércio de escravos nas estruturas de parentes e de relações entre gêneros entre povos macuas da região central de Moçambique.(6)

II) No campo dos estudos sobre a diáspora africana em direção as Américas, a pesquisa sobre a questão da música de matriz africana e os instrumentos tradicionais africanos no Brasil, em São Tomé, em Cuba, na perspectiva de entender continuidades e rupturas tanto na presença de instrumentos quanto nos ritmos e nas melodias de matrizes africanas, envolvendo sobretudo uma musicalidade de origem banto.(7)

III) Por fim na área dos estudos de trajetórias intelectuais e da relação entre literatura – historiografia e História, colocam-se dois trabalhos. O primeiro tem como foco a figura do intelectual Castro Soromenho, romancista nascido em Angola e com um lugar reconhecido na literatura angolana de língua portuguesa e as relações desse intelectual com os pensadores portugueses e brasileiros. (8) Por fim, a figura do intelectual Jaime Cortesão em seu exílio no Brasil e sua influência sobre a historiografia paulista relacionada à construção dos mitos e à montagem a Exposição do IV Centenários da cidade de São Paulo (1954). (9)

IV) No âmbito das orientações de iniciação científica colocam-se atualmente três trabalhos de investigação, todos eles voltados à aspectos da História de Moçambique. O primeiro investiga a formação do Arquivo Histórico de Moçambique e a coleção da revista Arquivo, da década de 1980 e os principais temas e as linhas historiográficas seguidas; (10) o segundo as narrativas etnográficas e etnológicas sobre os povos africanos da África Austral elaboradas durante a época colonial, particularmente sobre os yaos; (11) por fim, no campo da história da música e dos instrumentos musicais, os diálogos entre a música popular brasileira e moçambicana.(12)

V) Minha pesquisa individual segue algumas das direções presentes nas orientações dos trabalhos assinaladas. Como pesquisadora CNPQ 2011 – 2014 desenvolvi no período um estudo sobre narrativas de viagens e o comércio atlântico de escravos e de outros produtos concentrando-me nos relatos do século XIX. O título: Livingstone e os portugueses: narrativas de viagens e dinâmicas do comércio centro-africano (1a.metade do século XX). Atualmente e dando continuidade a essa investigação, mas realizando uma espécie de guinada índica, inicio o projeto Do Atlântico ao Indico: mercadores brasileiros nas redes comerciais de Moçambique e da África Oriental, 1820-1850. O objetivo é entender de forma mais profunda as relações entre as sociedades do Índico, particularmente as sociedades africanas da atual região de Moçambique e os mercadores estrangeiros, particularmente os brasileiros. Essa ultima investigação está relacionada também a um Projeto Pro-Mobilidade Internacional CAPES / AULP numa articulação entre FFLCH / USP e a Faculdade de letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane Maputo Moçambique (2013 – 2015) sob minha coordenação e com a participação da Profa. Dra. Marina de Mello e Souza e a Profa. Dra. Regiane Mattos PUC Rio.

Orientações (por ordem de menção)

Elaine Ribeiro dos Santos Silva (DO): Caravanas e expedições: trabalhadores do comércio de longa-distância na África centro-ocidental - séc. XIX

Rosana Gonçalves (DO): O Estado Independente do Congo: colonialismo europeu e olhares africanos (1885-1908)

Márcia Cristina Pacito Fonseca Almeida (ME): Comércio, bens de prestígio e insígnias de poder: as agências centro-ocidentais africanas nos relatos de viagem de Henrique de Carvalho em sua expedição à Lunda (1884-1888).

Lia Dias Laranjeira. DO. Os macondes na construção da identidade nacional moçambicana: um estudo sobre arte, cultura e política (séculos XX-XXI)

Ivana Pansera de Oliveira Muscalu (DO): O levante de Dambarare no planalto do Zambeze.

Juliana de Paiva Magalhães (DO): Moçambique na literatura de viagem do século XIX: cosmologias e identidades étnicas

Rafael Benvindo F. Galante (ME): A cupópia da puíta: tambores de fricção nas musicalidades do Atlântico Negro (Séculos XIX e XX).

David William Aparecido Ribeiro (ME): Cartografia das relações. As condições da produção intelectual e os percursos da escrita histórica de Jaime Cortesão no Brasil (1940-1957)

Cássio Santos Melo (DO): A Lunda na obra histórico-literária de Castro Soromenho (1930-1968)

Fernanda Marques David (IC): A questão da formação do Arquivo História e a revista Arquivo. Maputo Moçambique

Thiago Folador (IC): As narrativas etnológicas e etnográficas da época colonial e os yaos (Moçambique)

Luis Fonseca (IC): Diálogos musicais Brasil – Moçambique

Resumos recebidos:

Ivana Pansera de Oliveira Muscalu (DO): “Da boa guerra nasce a boa paz”: A expulsão dos portugueses do planalto do Zambeze (1693-1695)

Esta pesquisa tem por objeto a sublevação contra a presença lusitana no planalto do Zambeze, na África austral, ocorrido entre os anos de 1693-1695. Sob pretexto de responder a uma ofensa cometida pelos portugueses e luso-africanos em Dambarare, o mutapa Nyakunembire (c.1692-4) atacou a cidade, iniciando um curto e intenso período de agressões, tensão e medo que resultou na fuga dos estrangeiros de todas as cidades do planalto

Ao longo do século XVII, os lusitanos se estabeleceram no vale do rio Zambeze em feitorias subordinadas ao vice-reino da Índia, e em grandes extensões de terras, conhecidas como prazos da Coroa que, embora obtidas por iniciativa particular, passaram, posteriormente, à jurisdição da Coroa portuguesa. No altiplano a presença portuguesa deu-se de outro modo: ali os representantes portugueses eram escolhidos pelos próprios mercadores e negociavam diretamente com o mutapa. Particular foi o caso de Massapa, cidade considerada a ‘porta’ de entrada do reino, onde um representante nomeado pelo governador de Moçambique era, a um só tempo, administrador português e oficial que, em nome do mutapa, arrecadava impostos e aplicava justiça.

A sedição solapou este pretenso e variado equilíbrio de poder. Em termos localizados, a hipótese principal do projeto é de que a sublevação africana marca a insatisfação com a atuação e a ingerência dos diversos interesses portugueses e luso-africanos na política e no comércio da região, que haviam alterado paulatina, porém significativamente, as relações sociais e políticas vigentes no planalto. Em termos mais amplos, o estudo pode iluminar questões relativas à presença portuguesa no vale e no planalto do Zambeze, assim como as relações e dinâmicas de poder no interior da sociedade luso-africana e entre esta e os povos da África austral ao longo do XVII. Na versão que deixei no Brasil dizia que aqui poderia conter algo sobre o seu trabalho de mestrado – ou seja, fazer a ponte entre as duas pesquisas

David Ribeiro (ME): Cartografia das relações: As condições da produção intelectual e os percursos da escrita histórica de Jaime Cortesão no Brasil (1940-1957)

O polígrafo português Jaime Cortesão viveu no Brasil entre 1940 e 1957 e durante este período constituiu grande parte de sua obra historiográfica. Ainda que emigrado, desfrutou de condições bastante privilegiadas à sua produção intelectual, tanto pelo investimento feito pelas instituições governamentais para as quais trabalhou quanto pelos laços de sociabilidade criados.

A problemática das condições sociais de sua produção intelectual no Brasil está no centro desta pesquisa, que objetiva também compreender os liames de Cortesão com os debates brasileiros a partir de sua atuação no Ministério das Relações Exteriores e na Biblioteca Nacional, especialmente. Destas atividades iniciais, ganhou destaque a sua escrita histórica da formação territorial do Brasil e o bandeirantismo, que resultou no convite para a curadoria da exposição comemorativa do quarto centenário da cidade de São Paulo, em 1954.

A partir da análise das escritas de Jaime Cortesão e do percurso delas, expressas em suas obras, na curadoria da exposição e nos artigos para a imprensa, será possível compreender não só a representação do passado como também articulá-la aos debates e projetos daquele contexto. De modo geral, o trabalho tem como objetivo a análise do perfil intelectual de Cortesão, dentro do debate da metade do século XX, marcado nos círculos paulista e brasileiro pela definição da identidade nacional frente às modernidades possíveis.

Juliana Paiva Magalhães (DO): Moçambique e o recrudescimento do comércio internacional de escravos: por uma história das mulheres (séc. XVIII e XIX)

Historiadores especializados na História de Moçambique, com ênfase no comércio internacional de escravos, denominaram o período entre 1720-1860 como o longo século do tráfico de escravos devido ao aumento exponencial do número de pessoas escravizadas e embarcadas nos portos da região. Considerando o altíssimo desequilíbrio sexual entre os cativos destinados ao tráfico internacional direcionado aos portos americanos, que priorizou a comercialização de homens adultos, esta pesquisa de doutorado tem como objeto de estudo as mulheres que permaneceram nos territórios do atual Moçambique ao longo dos séculos XVIII e XIX.

Neste sentido, este estudo tem como principal objetivo contribuir para a reconstrução da história das mulheres pertencentes às camadas baixas, destituídas de poder econômico ou político, que vivenciaram as profundas transformações ocorridas no contexto da estruturação e intensificação do tráfico transoceânico de escravos. Por meio da análise de diferentes tipologias documentais, pretende-se deslindar trajetórias individuais e coletivas de mulheres que viveram naquela região africana.

Márcia Pacito (ME): Comércio, bens de prestígio e insígnias de poder: as agências centro-ocidentais africanas nos relatos de viagem de Henrique de Carvalho em sua expedição à Lunda (1884-1888)

Ao longo da segunda metade do século XIX, a região da África Centro-Ocidental foi palco do processo de intensificação de expedições europeias que conjugavam interesses econômicos, militares e científicos rumo ao interior do continente. Por meio das obras Descripção da Viagem à Mussumba do Muatiânvua (1890-1894) e Ethnographia e História Tradicional dos Povos da Lunda (1890), produzidas pelo explorador português Henrique Augusto Dias de Carvalho (1843-1909) durante sua viagem à região da Lunda, nordeste da atual Angola, entre 1884 e 1888, e do catálogo Collecção Henrique de Carvalho (Expedição à Lunda), editado pela Sociedade Geográfica de Lisboa em 1896, buscamos analisar como as exigências e predileções centro-africanas por determinados objetos, bens de consumo e produtos moldaram as relações comerciais travadas nesse período. Dentro de uma perspectiva mais ampla de reconhecimento das agências históricas africanas e pela ótica da história social, pretendemos investigar os fenômenos de incorporação e ressignificação de objetos – particularmente, bens de prestígio e insígnias de poder - enquanto expressões de identidades, códigos sociais e hierarquias políticas no âmbito dessas sociedades e de suas relações com os europeus.

Rosana A. Gonçalves (DO): O Estado Independente do Congo: colonialismo europeu e olhares africanos (1885-1908)

O Estado Independente do Congo foi oficialmente criado por meio de um decreto real assinado por Leopoldo II, rei da Bélgica, em 29 de maio de 1885. Sua formação não foi, no entanto, um processo simples, foram muitos os acordos firmados entre países europeus como França, Inglaterra, Alemanha e Portugal, mas também entre a Associação Internacional Africana e diversas autoridades africanas da região da bacia do Congo. Os tratados assinados entre autoridades locais e representantes da Associação Internacional Africana ou, mais tarde, do Estado Independe do Congo, compuseram um arsenal burocrático que serviu para o monarca belga demarcar o território africano sob sua tutela. Parece-nos importante, nesse sentido, analisar o impacto dessa demarcação territorial frente a um território no qual já se faziam presentes múltiplas e variadas soberanias.

O recorte cronológico do presente estudo inicia-se em 1885, quando da formação do Estado Independente do Congo, até 1908 quando este se transformou efetivamente numa colônia da Bélgica, administrada pelo seu parlamento. O período de 23 anos entre um fato e outro foi marcado pela exploração de vários produtos – sobretudo o marfim e a borracha - e pela intensa exploração da mão de obra africana, o que garantiu vultosos lucros a alguns poucos envolvidos, especialmente a Leopoldo II.

O processo de formação do Estado Independente do Congo é relativamente bem conhecido no que diz respeito aos interesses de Leopoldo II e suas estratégias diplomáticas para com as potências europeias. Nosso esforço se dá no sentido de privilegiar o contexto africano, destacando a complexidade de um movimento histórico para além da visão oficial dos europeus e de seus interesses.

Cabe lembrar que não foram poucas as oposições ao tipo de administração imposta ao Congo e as denúncias feitas não só por meio de matérias dos jornais da época, mas também publicações de escritores bem conhecidos, como E. D. Morel, Roger Casement, William H. Sheppard e George W. Williams, entre outros. Nesses textos encontram-se registrados depoimentos de africanos, cartas e relatórios de autoria de funcionários locais que, na perspectiva de uma avaliação histórica, podem servir como fontes documentais importantes. Além dessas peças acusatórias, depoimentos similares foram recolhidos pela Comissão de Inquérito de 1905, criada em razão das pressões que Leopoldo II recebia dos organismos internacionais.

Tendo como base esses registros, é possível identificar movimentos diversos de resistência africana, seja contra a colonização em si, seja os que foram motivados por uma reivindicação pontual, entre elas contrários à cobrança de impostos. Em outras palavras, as diversas frentes de oposição renderam um corpus documental ainda pouco utilizado que permitirá investigar a divergência africana ao processo de colonização em suas diferentes vertentes - política, social e cultural.

A PESQUISA SOBRE ÁFRICA EM GEOGRAFIA

Rosemberg Ferracini (doutorado defendido em 2012): A África na Geografia escolar: algumas proposições

Nosso texto se pautará em dois pontos, as ‘relações políticas, econômicas e culturais’ do Brasil com o continente africano nos últimos 10 anos e as possibilidades de abordagens desse conteúdo na Geografia escolar na sala de aula. Embasado na intensa aproximação do Brasil com o continente africano, nos perguntamos, até que ponto ela é benéfica politicamente para os países africanos envolvidos? Estaria a economia africana entrando em dependência do Brasil? Duas suposições que merecem atenção no desenvolvimento das atividades em sala de aula pelo professor com os seus alunos. Nessa condição de novos laços entre Brasil e África, urge uma terceira questão central: qual o papel do ensino de Geografia nesse processo.

Kauê Lopes dos Santos (DO): Os territórios africanos e a globalização: as inserções de Gana na atual Divisão Internacional do Trabalho

A pesquisa parte de uma premissa amplamente divulgada, segundo a qual os países do continente africano não estão inseridos no processo de globalização, ou seja, não possuiriam territórios adequados aos imperativos técnicos e políticos contemporâneos que pudesses aumentar a velocidade do fluxo de bens materiais e imateriais. Em que medida essa afirmação é verdadeira? Como será que as formações socioespaciais africanas – em especial Gana – estão inseridas na atual Divisão Internacional do Trabalho? 

Allan Rodrigo de Campos Silva (DO): Mobilização de refugiados africanos na crise da modernização: Solicitantes de refúgio no Brasil

Esta pesquisa propõe dar continuidade a estudos realizados desde 2008 sobre a temática da mobilidade do trabalho de imigrantes africanos em São Paulo, identificados como uma particularidade determinada nos movimentos migratórios mundiais contemporâneos. Nesta tese de doutorado, a partir das pesquisas anteriores, buscamos pensar os imigrantes em um quadro de análises mais amplo, a partir do marco histórico do Estatuto do Refugiado e em relação com a crise do processo de modernização, através do estudo de um grupo específico de imigrantes, identificados como refugiados pelos sistemas normativos globais. Tal grupo, enquadrado na situação de “solicitante de refúgio” encontra-se atado a um processo jurídico de indeferimento sem fim. Nossa hipótese é que entre a vida cotidiana destes sujeitos empíricos e os aparatos jurídicos e políticos que normatizam suas trajetórias, existiria um campo contraditório de resistências e reprodução do sistema global de controle das migrações (VIDAL, 2005). A partir do desdobramento das pesquisas empíricas sobre a sociabilização dos imigrantes identificados como refugiados no território brasileiro, num contexto de acirramento da crise do processo de modernização, precisam ser analisadas as práticas e discursos que tocam as normas do "Estatuto do Refugiado" no país, assim como as estratégias dos "solicitantes de refúgio", atados a uma condição de provisoriedade permanente.

Matheus Sartori Menegatto (Bacharel em Geografia e aluno de graduação da Licenciatura): modelização gráfica do arquipélago de cabo verde

O espaço geográfico está estruturado em diversos níveis de análise ou complexidade. Cada uma dessas escalas resulta, por sua parte, da combinação de sete lógicas sociais de controle ou dominação do espaço: malhas, redes de ligação, gravitação, contato, tropismo, dinâmica territorial e hierarquia. Essas sete lógicas, multiplicadas por quatro formas de representação geométrica (pontos, linhas, áreas e redes), resultam em vinte e oito Coremas (ou estruturas espaciais) de base (BRUNET, 2001). O autor, dando seguimento a seu esforço teórico-metodológico, pretende realizar uma “gramática dos coremas”, isto é, uma interpretação das estruturas espaciais pelo reconhecimento e pela composição dos coremas. Trata-se da Coremática, um método com raízes na Teoria Geral dos Sistemas, no estruturalismo, na cartografia e na semiologia gráfica de Jacques Bertin (DUTENKEFER; 2010); útil enquanto instrumento de investigação geo-histórica, de análise regional e de planejamento territorial.

A República de Cabo Verde é um país semipresidencialista, de colonização portuguesa, composto por dez ilhas e treze ilhéus, que, somados, totalizam 4.033 km², onde se abrigam 491.875 habitantes (Censo 2010). Alcançou sua independência em 1975, após conflitos entre a elite crioula local e a metrópole portuguesa. Geograficamente, suas ilhas, de relevo acidentado, originadas por vulcanismo de fratura, possuem tipos climáticos que variam do árido ao subúmido e dividem-se em duas porções: sotavento e barlavento. Há um grande contingente de emigrantes cabo-verdianos pelo mundo que supera numericamente a população arquipelágica (FONSECA et. al.; 2011), e sua influência política e econômica é notória, haja vista seu papel decisivo nas eleições parlamentares e a função de suas remessas financeiras na maximização do poder de compra da população local.

Lançando mão do método da Coremática, desenvolvido por Brunet (1987; 2000; 2001), foram elaborados modelos gráficos para a síntese espacial do arquipélago de Cabo Verde. Quis-se compreender, com esse trabalho, quais as estruturas básicas que permitem a representação de uma realidade que agrega massa oceânica e massa insular. Buscou-se, assim, identificar quais dados geográficos seriam correlacionáveis e como, a partir deles, far-se-ia possível compreender as áreas atraídas por centros urbanos preponderantes, como a Praia e o Mindelo, as formas de apropriação territorial nas diferentes ilhas, os locais de habitação, as redes de circulação e as superfícies de tendência de propagação de fenômenos tais quais a especulação imobiliária e o turismo. Com isso, pretendeu-se uma regionalização do território respeitando a totalidade desses aspectos, numa concepção que abarcou diversas perspectivas teórico-metodológicas.

A PESQUISA SOBRE ÁFRICA EM SOCIOLOGIA

Prof.Dr. Fernando A.A. Mourão: Angola: Integração e Inserção Internacional: a formação de quadros como variável prioritária de um modelo de desenvolvimento flexível

Descrição: A potencialização do setor de serviços e sua inclusão na rede social angolana decorrem necessariamente e não só da reformulação do sistema, modelo, e programação de cursos formativos, a par de uma reflexão abrangente sobre a criação de cursos e carreiras adequadas. Em relação à área do petróleo, dos diamantes, da mineração e do agronegócio, cabe adequar o modelo (s) a construir em função dos propósitos relativos a cada área e da capacidade de financiamento de um projeto envolvendo a criação de modelos de ensino específicos dentro dos objetivos, capacidades, possibilidades reais de inserção do país na perspectiva regional e universal, pretende-se analisar os programas de ensino de natureza clássica, inclusive os da área técnica, sempre que possível levantando a relação com as necessidades do país.

Maurício Waldman (Pós-doc): O Papel de Angola na África Centro-Meridional: Recursos Hídricos, Cooperação Regional e Dinâmicas Sócioambientais

Pesquisa apoiada pela FAPESP cuja meta é avaliar no plano das Relações Internacionais (RI), o papel de Angola na África Centro-Meridional quanto aos Recursos Hídricos. Nesse quesito, diante de uma situação global de escassez de água, Angola desfruta de situação peculiar. O país dispõe de fartos mananciais de água doce, aspecto que no contexto regional, se afirma notadamente nas interfaces geográfica e hidro-geológica. As reservas angolanas de água doce, pari passu a um patamar interno de consumo baixo, faz do país um potencial provedor regional e mundial do líquido. Nessa acepção se incluiria a água virtual, o comércio de água engarrafada e/ou distribuída por dutos e navios-tanques. Tal prerrogativa é realçada por fatoração geopolítica. Angola é origem de muitos dos rios que escoam através da África Centro-Meridional, dado com irrefutável impacto regional. No contexto espacial imediato, Angola contrasta com países que vivenciam stress hídrico, caso da Namíbia e República Sul-Africana. Assim, o papel de Angola - país signatário do Protocolo sobre o Sistema de Cursos de Águas Partilhadas da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) - ganha óbvia notoriedade. Outro recorte de interesse é atuação de Angola no seio da Comunidade Econômica dos Estados da África Central (CEEAC), particularmente, com a República Democrática do Congo (RDC), nação que também abriga vasta rede hídrica. Tudo isso configura nexos quanto às RI que suscitam avaliação das interações entre os países da região centro-meridional da África e as potencialidades postadas para Angola a partir do campo diplomático e atuação que pode exercer no plano regional. Ademais, questões como o abastecimento e saneamento - isto é, políticas públicas de gestão dos recursos hídricos - estão igualmente pautadas no corpo de uma investigação que enfocando a água, tem necessariamente por escopo amplo rol de nuanças socioambientais.

Paulo de Tarso Medeiros Valério (ME): Etnicidade em Angola: dinâmicas sócias e mobilizações políticas

O tema em que se inscreve a pesquisa é o da relação entre etnicidade e Estado Nacional no atual contexto de consolidação do Estado pós-colonial. O problema que suscita a reflexão é o da construção e consolidação da hegemonia dos três principais partidos angolanos – o MPLA, FNLA e a UNITA – e o uso social e político da identidade étnica.

A questão do tribalismo e da expressão étnica aparece como uma velha história, ao mesmo tempo em que domina a totalidade da vida política africana. Visto como grande inimigo da união e unificação nacional, a preocupação com manifestações identitárias étnicas se estende até os dias atuais, marcando presença no discurso político de grande parte dos partidos e atores políticos africanos. No entanto, a literatura sociológica e antropológica mostra que as fronteiras que separam o nacionalismo e a etnicidade não são tão fixas e evidentes.

A concepção partilhada por intelectuais como Lancine Sylla, Abel Kouvouma, Frederick Barth, Max Weber, entre outros, de que a etnicidade é um fenômeno identitário dinâmico, apoiado sobre aspectos culturais, construído e maleável socialmente, proporciona-nos a capacidade de analisar suas manifestações e consequências em um contexto muito mais complexo de lutas identitárias, onde diversos atores sociais lutam para construir sua hegemonia e disputar capital político, econômico, simbólico e cultural. Sendo assim, a atribuição de uma identidade étnica aparece como poderoso instrumento capaz de criar um sentido de comunidade, construindo, assim, distinções sociais que podem assumir caráter conflito e engendrar mobilizações políticas.

 Apoiando-se em abordagens que enfatizam a dinamicidade da categorização étnica, no repertório da teoria social clássica, contemporânea e africana, esta pesquisa qualitativa tem como objetivo apreender os usos e desusos da identificação e categorização étnica por parte dos três principais partidos angolanos, destacando a importância da construção ou desconstrução identitária para seus projetos de hegemonia, disputa ou manutenção do poder.

A PESQUISA SOBRE ÁFRICA EM ANTROPOLOGIA

ProfªDrª Laura Moutinho: Sobre danos e reparações: controvérsias morais em meio a tensões raciais – o caso da África do Sul

O objetivo mais amplo desta proposta de investigação é refletir sobre alguns dos limites e dilemas acerca da consciência moral humanista. Esta pesquisa está diretamente inscrita na atual investigação que desenvolvo como Bolsista Produtividade Nível 2 - CNPq, intitulada “Sob o Comando de um deus racista: políticas sexuais na África Sul” e deve ser compreendida como uma continuação de outras reflexões anteriormente realizadas. A perspectiva que orienta este trabalho está pautada na ideia de que ainda não foi suficientemente explorada relação entre igreja e estado na construção do aparato legal que regulou a separação racial através da gestão da sexualidade. A base para a reflexão proposta são os dilemas morais e políticos presentes no trabalho de campo que venho realizando em grupo ultra-racista da África do Sul. Mais especificamente, venho explorando a hipótese de que a tela que a lógica racial (e teológica) construiu diferenciando e hierarquizando a humanidade na África do Sul (especialmente, no período do apartheid mas não apenas) é confrontada e reconstituída pela indignação moral, pelo sofrimento e pela (produção da) compaixão: todos são elementos centrais para a linguagem dos direitos humanos.  Diante deste quadro político em franca transformação, tem sido impossível não refletir sobre os enfrentamentos (para não dizer compromissos) morais e políticos dos antropólogos na contemporaneidade bem como o lugar deste saber no desenho de políticas e na construção da humanização de certos sujeitos. Especialmente no tocante a transformação das “questões sociais” em “questões morais”.

Prof.Dr. Vagner Gonçalves da Silva: Brasil em transe: religiões afro-brasileiras e identidade nacional

Este projeto de pesquisa tem por objetivo interpretar os modos pelos quais elementos das religiões afro-brasileiras dialogam com outras esferas da cultura nacional (privilegiando as mais relacionadas com as dimensões lúdica e estética como a música popular, a capoeira, as festas, a literatura, o cinema etc.) gerando uma pauta de consumo e produção de bens simbólicos muitas vezes eleitos como símbolos nacionais de nossa singularidade cultural.

Prof.Dr. Carlos Serrano: A trajetória das elites nacionais de Angola e seus projetos de nação: Visões brasileiras

O projeto de pesquisa tem por objetivo promover um estudo, de caráter interdisciplinar e comparativo, entre os participantes deste grupo, a fim de analisar como as elites dos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) se constituíram em passado recente, circulam e monopolizam ou manipulam os diversos capitais necessários a este processo. Assim, a partir da produção dos capitais econômicos, político e simbólico, procuraremos buscar o seu significado para a formação e reprodução das elites. Associadas a estas elites existem estratégias diversas no enfrentamento com o colonialismo. Elas são possuidoras de certos programas ou projetos políticos no que se refere às Nações em formação ou após as Independências nos novos desafios para a concretização destes projetos. Que elites participam ativamente deste processo?

Luis Felipe Kojima Hirano (DO defendido em 2013): O último carnaval da Praça Onze: Orson Welles e a representação racial na Política de Boa Vizinhança

Pretende-se discutir o documentário inacabado de Orson Welles sobre o Carnaval da Praça Onze (1942). Tal projeto tem um interesse particular para compreender as relações raciais nesse período, porque foi abortado pelos governos brasileiro, norte-americano e a RKO por conter muitas imagens de negros, mestiços e dimensões do carnaval fora dos parâmetros da Política de Boa Vizinhança, do Estado Novo e de Hollywood.

Antonio Alone Maia (DO): Saberes Locais Médicos: Moçambique-Brasil, o caso benzedeiras. Um Olhar Antropológico-Juridico

O presente projeto pretende pesquisar Saberes Locais Médicos: Moçambique-Brasil, o caso benzedeiras, com Um Olhar Antropológico-Juridico numa perspectiva comparativa metacultural. A pesquisa vai buscar entender os modelos etiológico e terapêuticos nas praticas médicas locais diante da saúde e doença, o papel e as relações de poder de seus atores e as teorias que inspiram os poderes que determina que essas praticas sejam consideradas como legais ou ilegais descaracterizando-as em detrimento de saberes que pretendem ser hegemônicos e globais negando, simplesmente, o diálogo com a alteridade, e neste caso, o diálogo com a alteridade médica.

Gleicy Mailly da Silva (DO): Empreendimentos sociais\negócios culturais: uma análise etnográfica da Feira Preta na Cidade de São Paulo

A presente pesquisa tem como foco a análise das interações sociais que se estabelecem em torno do evento Feira Preta, que ocorre uma vez ao ano na cidade de São Paulo. A feira tem como objetivo promover atividades de cultura e comércio entendidos como específicos da comunidade negra. Mais especificamente, há alguns traços distintivos que nos interessa focar: sua associação a um conjunto de institutos culturais; parcerias com a iniciativa privada; sua influência junto a políticas públicas de ação afirmativa, que têm sido ampliadas principalmente na última década; a construção de um contexto não apenas de fomento a projetos ligados a certa perspectiva dos conceitos de “cultura” e “identidade”, mas também, e fundamentalmente, de manutenção de circuitos econômicos de geração de renda e emprego, orientados pela retórica identitária e, em particular, pelo recorte étnico-racial e de gênero. Para tanto, pretende-se levar em conta as conexões e as formas de sociabilidade que se estabelecem entre os organizadores, os parceiros e os participantes da feira.

Camila Sampaio (DO): Identidades e estigma entre mulheres na região de fronteira internacional entre Angola e Namíbia.

A tese, que está em processo de redação, apresenta perspectivas de como tem se constituído o “Pós-Guerra” em duas cidades de Angola, que completou no ano de 2012 dez anos de assinatura de acordos de paz. A pesquisa desenhou-se a partir de “brechas” que encontrei ao atuar como antropóloga/assistente de pesquisa de agências que tinham seus próprios objetivos de investigação, a saber uma empresa interessada na atuação de uma denominação religiosa em expansão e uma instituição de pesquisa em saúde coletiva.  A partir das relações estabelecidas com estes mediadores e de sua análise, procuro compreender, sob perspectivas de diferentes atores que vivem na capital e em uma província fronteiriça, os significados da “reconstrução nacional”, do processo de crescimento urbano, da ressignificação das experiências de guerra e das tensões geradas entre “nacionais” e “estrangeiros/as”.

Michelle Cirne (DO): A produção intelectual africana em ciências sociais: a agência do CODESRIA

A pesquisa de doutorado tem como universo de estudo a produção em ciências sociais realizada com apoio do CODESRIA – Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África, sediado no Senegal, e como recorte temporal o final do século XX até o presente. Seu objetivo principal é estender um olhar antropológico para as obras, com o intuito de analisar temáticas, motivações, interpretações, bases epistemológicas e as condições sociais de produção desse conhecimento em países do continente africano.

Rachel Rua Baptista Bakke (DO): Na escola com os orixás: o ensino das religiões afro-brasileiras na aplicação da Lei 10.639

A Lei n° 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira nos estabelecimentos escolares do país. Nosso objetivo é apresentar as reflexões a respeito da forma pela qual as manifestações religiosas afro-brasileiras aparecem nos materiais didáticos, cursos de formação continuada de professores e, por vezes, na própria sala de aula a partir dessa Lei, assim como mostrar as tensões e negociações verificadas quando essas religiões saem dos terreiros e adentram a escola.

Rebeca Campos Ferreira (DO): “Filhos de uma reza só”: uma reflexão sobre dilemas identitários no Quilombo do Carmo

A pesquisa propõe reflexões sobre o processo de reconhecimento visando à titulação de terras de comunidades de quilombo. A partir de estudos realizados no Quilombo do Carmo, SP, pensa-se em questões relacionadas à possibilidade de acesso a um direito de caráter coletivo, étnico e fundiário, que remete à construção identitária, na medida em que o preceito constitucional pressupõe a emergência da identidade quilombola, em que pese a ressemantização do conceito, para fins da aplicabilidade legal.

Silas Fiorotti (DO): “Transnacionalismo universal”: o caso da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em Moçambique            

Pretendemos avaliar os impactos do desenvolvimento e do crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no campo religioso de Moçambique, considerando as relações desta igreja com as práticas religiosas locais, marcadas pelo chamado culto aos espíritos. Para tanto, analisaremos de que forma as principais estratégias do proselitismo da IURD no Brasil (teologia da prosperidade, cura divina, batalha espiritual, utilização da mídia e inserção no campo politico) estão presentes na missão evangelizadora desta igreja em Moçambique.

Márcio Zamboni (ME): Herança, distinção e desejo: Homossexualidade e Raça em Camadas Altas

O objetivo deste trabalho é analisar o lugar da raça na trajetória de vida e nas dinâmicas de interação de homens e mulheres homossexuais de camadas altas. A reflexão partirá do trabalho de campo e das entrevistas em profundidade no formato história de vida realizados na cidade de São Paulo junto a uma rede de gays e lésbicas na faixa de 40 a 55 anos. Para tal, devo articular três eixos de reflexão. Em primeiro lugar, analiso os processos de construção de si através de narrativas familiares de ascendência, imigração e herança caracterizados por uma linguagem racializada - que embaralha a transmissão de traços fisionômicos, temperamentos e disposições morais. Trata-se de uma dinâmica de distinções microscópicas que problematiza uma suposta homogeneidade branca no universo racial da elite paulistana. Em segundo lugar, pretende-se investigar a ambígua relação com trabalhadores domésticos (particularmente com mulheres negras) durante a infância nos relatos de história de vida - que frequentemente tensionam as primeiras narrativas sobre formação. Por fim, deve-se considerar o lugar das relações afetivas e sexuais heterocrômicas vividas recentemente por alguns desses sujeitos, reposicionando o lugar da diferença racial na construção de si na encruzilhada entre relações familiares, trabalho doméstico e desejo exogâmico.

Thais Henriques Tiriba (ME):Uma atraente esposa brasileira ou seu dinheiro de volta: uma análise de agências de casamento especializadas em unir mulheres brasileiras a homens alemães

O objetivo desta investigação é perscrutar os valores atribuídos a relacionamentos afetivo-sexuais que se estabelecem através da mediação de sites de relacionamento e agências de casamento entre homens do chamado primeiro mundo e mulheres do chamado terceiro mundo. Em particular, relacionamentos entre homens alemães e mulheres brasileiras. A pesquisa se dará em dois níveis: um global e um local.  Pretende-se analisar quais são as dinâmicas históricas e sociais que tornam relacionamentos desse tipo não só possíveis como também desejáveis. Tem-se ainda como objetivo iluminar de que maneira tais dinâmicas estariam implicadas na produção e reprodução do desejo e de interações tidas como íntimas, bem como as mesmas mobilizam ideias e medos da sociedade relativos a temas como sexualidade e raça. Quer-se, ademais, verificar que lugar ocupam as brasileiras nesse mercado internacional de fluxos matrimoniais e agências de casamento. Quanto ao nível local, objetiva-se tanto investigar as motivações pessoais dos indivíduos que fazem uso dessa forma de se buscar um parceiro compatível quanto questionar como relações mais amplas relativas a desigualdades de poder, gênero, raça e nacionalidade são negociadas na intimidade dos casais.

Janaína Damaceno concluiu o doutorado em 2013 (orientação: Prof. Kabengele Munanga), e desenvolveu a pesquisa Os Segredos de Virgínia: Teorias raciais e Estudo de Atitudes na São Paulo dos Anos 1940-1950, que versa sobre a subalternidade e o apagamento de intelectuais negros do panorama das ciências sociais no Brasil. Além disso, realiza pesquisas sobre cultura visual africana, em especial, sobre fotógrafos africanos, além de coordenar o FICINE "Fórum Itinerante de Cinema Negro", plataforma de pesquisa sobre cinema negro, desenvolvida em parceria com o Núcleo de Artes Visuais, Cinema e Multimédia do Ministério da Cultura de Cabo Verde.

Valéria Alves de Souza (ME): Os Tambores das “Iabás”: raça, sexualidade, gênero e cultura no Bloco Afro Ilú Obá De Min

 Este trabalho é parte da minha pesquisa de mestrado que está em andamento, intitulada: “Os Tambores das “Iabás”: raça, sexualidade, gênero e cultura no Bloco Afro Ilú Oba De Min”. Nesta pesquisa, proponho-me a analisar as formas pelas quais as integrantes do Bloco Afro Ilú Oba de Mim - Educação, Cultura e Arte articulam os marcadores sociais, raça, gênero, sexualidade e cultura. Mais especificamente, pretendo colocar em perspectiva a maneira pela qual os discursos identitários estão sendo agenciados através de uma série de políticas culturais. O Bloco afro foi constituído como uma entidade feminina com o objetivo de preservar e divulgar a cultura negra no Brasil, mantendo um diálogo cultural constante com o continente africano através dos instrumentos, dos cânticos, dos toques e da corporeidade, visando o fortalecimento individual e coletivo das mulheres na sociedade. 

Marcelo Mendes Chaves (ME) A estética Afrobrasileira de Carybé

O trabalho trata da plástica de Carybé, especificamente em suas ilustrações e produções gráficas, no período compreendido entre 1950 e 1980. A pesquisa desenvolvida sobre essa temática considera a mitologia e a ritualística de origem negro-africana iorubá como uma das poéticas do artista.

Olavo de Souza Pinto Filho (ME): África como destino: os novos caminhos do oráculo de Ifá

A proposta dessa apresentação surge a partir reflexões sobre o movimento de busca pela África pelos membros do candomblé: a chamada reafricanização do candomblé. Trabalharemos um sentido que potencialize os “conceitos nativos” sobre África como eles se articulam dentro da retomada do culto de Ifá.

Tatiana Lotierzo (ME): A Redenção de Cam e a estética do embranquecimento no último Oitocentos

Propõe-se analisar a tela A Redenção de Cam (1895), de Modesto Brocos. Considerada desde o início uma apologia do embranquecimento, a imagem é aqui encarada como uma tese sobre este tema. Tendo isso em mente, a análise procura evidenciar diálogos entre esta pintura e certas estéticas que marcaram o racismo oitocentista do ponto de vista pictórico, argumentando que ela propõe um modelo de corpo feminino branqueador.

Bruna Amaro dos Santos e Paula Neto Homem de Montes (IC): Do Candomblé ao Ibilé: Reafricanização e Patrimonialização de um Terreiro Paulista

Esta pesquisa busca investigar o processo de reafricanização (adoção de rituais de acordo com modelos da tradição ioruba coletados diretamente nos locais de sua prática na África) e de patrimonialização (atualmente está reunindo informações para solicitar seu tombamento junto aos Condephaat) do terreiro Ilê Axé Odé Lorecy, templo situado na cidade de Embu, na região metropolitana de São Paulo, liderado pelo pai-de-santo Léo de Logun Edé.

A PESQUISA SOBRE ÁFRICA EM LINGUíSTICA

ProfªDrª Márcia Oliveira / ProfªDrª Flaviane Romani-Svartman / Prof.Dr. Gabriel AntunesVariedades Africanas de Português e Línguas Crioulas do Atlântico

Nesta apresentação, introduzimos o Grupo de Estudo de Línguas em Contato – GELIC – e as pesquisas linguísticas que enfocam duas áreas específicas de investigação: (i) as variedades africanas de português, enfocando os países de Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Angola; (ii) línguas crioulas do Atlântico, enfocando as seguintes línguas crioulas que vêm sendo estudas no GELIC: caboverdiano, crioulo de Guiné Bissau, São Tomense, Principense, Angolar e Papiamentu.

Os estudos sobre as variedades de português faladas na África desenvolvidos pelos pesquisadores do GELIC estão centrados em projetos de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado nas áreas de morfossintaxe e nas da fonologia segmental e suprasegmental, esta  enfocando a fonologia entoacional. Os estudos em línguas crioulas do Atlântico estão centrados em projetos de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado nas áreas de morfossintaxe e nas da fonologia segmental.

Eduardo Ferreira dos Santos (DO): O Projeto Libolo – Angola

Nesta apresentação, faremos uma introdução do projeto “Município do Libolo, Kwanza Sul, Angola – Aspectos linguístico-educacionais, histórico-culturais, antropológicos e sócio-identitários”, ou comumente designado Projeto Libolo.

Formado por uma equipe multidisciplinar das áreas da Linguística, Educação, História e Antropologia, com integrantes de diferentes instituições de ensino e pesquisa do Brasil e do exterior, destacaremos os objetivos concernentes à equipe linguística, especificamente aos trabalhos que envolvem os estudos e caracterização da língua portuguesa, como língua materna e língua segunda, e da língua quimbunda faladas nas quatro comunas do município.

ProfªDrª Margarida Maria Taddoni PetterLínguas Africanas na Linguística

A FFLCH foi a pioneira na introdução do estudo de línguas africanas no currículo do Departamento de Linguística, na graduação e na pós-graduação.  Desde sua implantação, os estudos nessa área têm procurado contemplar duas vertentes de pesquisa: as línguas africanas na África e a presença dessas línguas no Brasil. Muitas dissertações e teses foram elaboradas sobre os diferentes aspectos de línguas africanas: fonologia, morfologia, sintaxe e pragmática e sobre as línguas africanas no Brasil. A presença de línguas africanas em nosso país tem sido investigada sob dois aspectos: o estudo de comunidades quilombolas e da linguagem de cultos afro-brasileiros. Recentemente, desenvolveu-se um projeto CAPES-COFECUB com o objetivo de investigar a participação das línguas africanas na constituição do português brasileiro, que resultou na publicação de duas obras, uma em português – A África no Brasil: a formação da língua portuguesa – e outra em francês – Portugais et langues africaines:  études afro-brésiliennes.

Everton Machado Simões (ME): África Banta na Região Diamantina de Minas Gerais

No final da década de 1920, o Prof. Aires da Mata Machado Filho ouviu pela primeira vez os cantos entoados durante o trabalho pelos descendentes de africanos na região de São João da Chapada, município de Diamantina (MG). Machado Filho pôde registrar no decorrer da década de 30, sessenta e cinco vissungos, como são denominados estes cantos, além de dois glossários da ‘língua banguela’ local, utilizada pelos afro-descendentes como uma linguagem secreta. Desde sua publicação, em 1943, ‘O Negro e o Garimpo em Minas Gerais’ é uma referência da sobrevivência de ao menos vestígios de línguas africanas no Brasil, tendo instigado pesquisas na região e contribuído com uma reflexão menos passiva da preservação e reconstrução identitária do africano escravizado na diáspora. Entretanto, a partir dos estudos afro-brasileiros desenvolvidos desde o final do século XIX, muitas das tentativas de investigação etimológica da contribuição lexical de línguas africanas à língua portuguesa têm se restringido a algumas línguas da África ocidental (iorubá, por exemplo) ou a um termo genérico que engloba uma grande quantidade de línguas (‘banto’, às vezes mais especificamente o quimbundo e o quicongo). Ao passo que estas línguas tenham sido importantes regionalmente, como o iorubá em Salvador da Bahia, ou mais difundidas pelo território nacional, como se pode observar em diversos empréstimos do quimbundo no português brasileiro, ignora-se geralmente a realidade plurilinguística dos escravos trazidos ao Brasil. Neste trabalho, buscou-se fazer uma cuidadosa pesquisa etimológica dos termos descritos em Machado Filho (1943), além de expandir a pesquisa para demais comunidades afro-descendentes da região, a saber, duas comunidades remanescentes de quilombos, Ausente e Baú, e o distrito de Milho Verde, município de Serro, além da comunidade do Espinho, município de Gouveia, todos pertencentes ao antigo distrito diamantino de Minas Gerais. Nossa pesquisa indica que a região compartilhou da sobrevivência de um léxico diferenciado em comum, que pode ser amplamente atribuído à presença de africanos escravizados provenientes da região de Benguela, falantes de umbundo, além do contato com demais línguas do subgrupo banto (tronco Nigero-congolês). Busca-se, desta forma, uma associação com elementos históricos e sociais dos africanos embarcados no porto de Benguela até meados do século XIX que tenham favorecido a preservação de seu léxico nestas comunidades isoladas e que possa refletir em pesquisas etimológicas de comunidades semelhantes no Brasil (a ‘cupópia’ do Cafundó, investigado por Vogt & Fry, a língua da Tabatinga, investigada pela Profa. Sônia Queiroz, entre outros), além de contribuir para os estudos da influência de línguas africanas na constituição do português brasileiro.

ProfªDrª Esmeralda Vailati Negrão / profªDrª Evani Viotti: Em busca de nossa história linguística: o português brasileiro como língua transatlântica

O objetivo geral de nossa pesquisa é investigar a história do contato de línguas que está na base da emergência do português brasileiro. Não se trata apenas de levantar as línguas que estiveram em contato durante a formação do Brasil, mas o tipo de relação socioeconômica que havia entre os falantes das diferentes línguas. É isso o que vai explicar por que o português brasileiro não pode ser considerado uma língua crioula. O estudo parte de dados da sintaxe do português brasileiro contemporâneo que evidenciam que a estruturação sintática dessa língua apresenta substanciais diferenças em relação àquela do português europeu e das línguas românicas. Nossa hipótese é a de que esses fenômenos do português brasileiro tiveram sua origem no contato intenso entre falantes do português do século XVI e do quimbundo, na África, no Brasil, e nas viagens transatlânticas constantes.

Wânia Miranda (ME): O sintagma nominal do caboverdiano: uma investigação semântica

Nesse trabalho apresentaremos, de modo breve, a pesquisa realizada sobre o sintagma nominal (NP) do caboverdiano, língua falada no arquipélago de Cabo Verde, localizado na costa ocidental africana. As análises tiveram como foco a variedade de Santiago, ilha em que está localizada a capital do país, a cidade de Praia.

Analisamos, de modo amplo e dentro de uma perspectiva semântica, os elementos do sintagma nominal a fim de elucidar questões presentes na literatura sobre o tema.

Os nomes no caboverdiano, em geral, não são acompanhados de determinante e podem ser interpretados tanto como definidos quanto como indefinidos. A utilização de un / uns está, em geral, associada à introdução de novos referentes, seu uso, contudo, não e frequente. Existe, ainda, a partícula kel / kes que parece veicular, entre outras coisas, definitude. Tal emprego, todavia, tampouco se dá frequentemente. O estatuto de kel, em caboverdiano, causa algumas divergências entre os pesquisadores da língua. Alguns autores advogam que ele desempenha, por vezes, o papel de artigo definido (ver, entre outros, Alexandre (2004), Baptista (2007), Quint (2000).

A bem da verdade, a maioria das descrições sobre o caboverdiano não manifesta acordo quanto à existência ou não de artigo definido nessa língua. Os que afirmam sua existência parecem, muitas vezes, apresentar análises da língua centradas na descrição e análise do português, principalmente do português europeu. Diante dessa perspectiva, diversos fenômenos idiossincráticos do caboverdiano podem passar despercebidos, como no caso de uma possível contribuição ilocucional do operador uma, outro modificador do sintagma nominal. Este trabalho procurou realizar uma análise do caboverdiano centrada nos fatos da própria língua, investigando as diferentes estratégias de interpretação dos nomes, bem como o papel dos elementos que compõem o sintagma nominal.